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No mar economês, uma gota de cultura

Precisamos, por exemplo, de olhar pelo nosso património. A equipa ministerial cessante olhou? Talvez tenha olhado mas não viu.

Depois do devastador incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro (Setembro último), deveriam ter soado todas as campainhas nas instituições patrimoniais portuguesas. Cá fora não se ouviram mas, dada a falta de verbas e de recursos humanos, aposto que se mantiveram mudas. Entre nós, o incêndio do núcleo científico e museológico da Escola Politécnica (em 1978) deveria ter servido para colher exemplos. Não o fizemos porque quando, dez anos depois, o Chiado ardeu facilmente se identifica algum paralelismo. Na Escola, foi preciso obter autorização do então Presidente da República (Eanes) para rebentar com o portão de acesso (setecentista) cuja largura impedia a pronta entrada das viaturas magirus. No vai-e-vem da pergunta e resposta, a Escola virava cinza perante a estupefacção e tristeza dos cidadãos; na Escola, nunca ninguém teria pensado no assunto e não haveria (estou eu a deduzir) um Plano de Emergência, esperar-se-ia que nada de tão dramático pudesse acontecer. Desapareceram séculos de investigação científica e eu direi, então, ainda bem que os invasores franceses (em 1810) levaram o que levaram para Paris. Tal como aconteceu com o Iraque e a Síria. Ainda bem que no século XIX os franceses e ingleses e alemães trouxeram da Mesopotâmia para a Europa os mais antigos testemunhos da civilização humana. Que heresia estou eu a defender?! O que se perdeu de património móvel no Iraque, a perda irreparável de Palmira toldam-me certamente o discernimento. Síria, Grécia, Egipto, Portugal, Iraque, Indochina: se os próprios não valorizam e abandonam um património de dimensão universal, então, o indesejável acontece. O elemento comum entre o incêndio da Escola e do Chiado é o desleixo. Nos anos 80 (1987?) correu um abaixo assinado (que subscrevi) para que os bancos (em betão), semeados pela Rua do Carmo acima por Krus Abecasis (CDS, Presidente da Câmara de Lisboa 1980-1989), fossem removidos. Que não. Até àquela madrugada em Agosto de 1988 quando o incêndio deflagrou e os carros dos bombeiros ficaram bloqueados pelos bancos de betão!

O desaparecimento do Museu do Rio constitui perda absolutamente irreparável. Pelo número de peças (20 milhões) insubstituíveis, pela memória dos povos indígenas do Brasil que elas convocavam, pela história da colonização, do desbravar da terra incógnita, pelas campanhas de investigação em prol do conhecimento. De repente, é como se o Brasil deixasse de ter passado e com ele a humanidade. Tudo porque uns fios eléctricos descarnados e à vista de toda a gente provocaram um curto-circuito pela calada da noite. Se foi esta a causa do desastre, que maior desleixo se pode imaginar?! Vivi as primeiras notícias chegadas do Brasil com imensa dor e angústia sempre com o pensamento nas instituições portuguesas.

Para viver e deixar um marco, o Ministério da Cultura não depende só de verbas chorudas. Há muito trabalho de formiguinha que tem de ser feito, bem feito. Um trabalho que estruture, que dê garantias, que perdure. Por exemplo, quantas instituições patrimoniais portuguesas têm um Plano de Emergência feito e testado? Testado, claro, por técnicos competentes. Um incêndio, uma inundação num depósito de livros ou numa reserva museológica… até onde estão as instituições preparadas para enfrentar o desastre? Sabem o que devem salvar em caso de tragédia? Já fizeram simulacros? Têm circuitos definidos? Um pequeno tremor de terra, uma hipótese irrecusável arrastando um rol de consequências negativas, pode atingir irremediavelmente as colecções. Quantas instituições patrimoniais estão preparadas para um cenário destes? Poucas perguntas entre muitas possíveis para nos inquietar.

O segredo de uma resposta com sucesso que estanque o incêndio ou a inundação, antes de residir nalgum equipamento sofisticado, de marca consagrada, está no conhecimento da instituição, na análise que se fizer ao próprio sistema orgânico. Primeiro, a análise, a identificação dos cantos à casa, a clarificação e atribuição de responsabilidades e competências, a avaliação do que existe e do que falta. As forças e as fragilidades. Só mais tarde, a escolha de equipamentos. Cuidado com eles, equipamentos maravilhosos de marca, cantos de sereia. Eles espreitam mas ignorando-se onde e quando aplicá-los, para quê os equipamentos? O desenho de um Plano de Emergência não é um trabalho muito apelativo e, mais vezes do que se gostaria, concita a zanga, a inveja entre departamentos. Preparar um Plano de Emergência requer o apoio incondicional de quem dirige a instituição. Só é viável chamar técnicos, bombeiros ou pessoal da protecção civil para ouvir os seus pareceres estando em absoluta sintonia com a direcção. Este trabalho de análise e levantamento é lento, demora muito tempo e depende da prata da casa que é quem verdadeiramente conhece a instituição. Trabalho gigante de organização e gestão que, até ser necessário avançar com concursos públicos para satisfazer os requisitos estabelecidos, vai enfrentar muitas batalhas. Em vez de palavras, mãos à obra! Se o novo Ministério começar de imediato, estará em condições de assegurar a abertura de concursos públicos e inclusão das indispensáveis verbas no orçamento 2020. Bendito planeamento.